Quando não fui poeta é um retrato lírico da vida comum.
Este livro é, ao mesmo tempo, espelho e convite. Espelho, porque o leitor encontrará nele fragmentos de si mesmo: o cansaço ao final do expediente, a lembrança que reaparece sem ser chamada, o medo de desperdiçar os dias, a esperança silenciosa de que a vida seja mais do que repetição. Convite, porque os poemas abrem brechas, insinuando que cada gesto contém seu próprio ritmo e sua própria beleza.
A organização dos poemas imitam a passagem de um dia. Ao virar das páginas, seguimos o eu-lírico desde os primeiros movimentos da manhã até a densidade da noite, atravessando trabalho, encontros, deslocamentos e silêncios. Essa organização, quase narrativa, conduz o leitor a uma experiência contínua, como se estivesse acompanhando o fluxo de consciência de alguém que caminha e pensa, pensa e se perde, se perde e se encontra na palavra.
No centro desse percurso está a busca pelo sentido da palavra poética. O eu-lírico não nasce poeta; ele se torna — ou melhor, se descobre — à medida que o dia avança e os poemas emergem daquilo que parecia sem importância. É como se cada verso fosse um testemunho de resistência contra a mecanização da vida. Quando tudo se resume a relógios, agendas e obrigações, a poesia surge como um refúgio, um espaço em que o sujeito pode se permitir sentir, refletir, questionar. Mas, mais do que refúgio, a poesia aparece aqui como afirmação de vida: não um esconderijo, mas um modo de existir plenamente, de recuperar a inteireza diante da fragmentação cotidiana.
Os poemas transitam entre diversos lugares. Alguns se debruçam sobre a rotina de trabalho, expondo a alienação do corpo e da mente que repetem tarefas sem sentido. Outros se abrem para a memória, deixando que lembranças de infância, amores e perdas interrompam o presente. Há ainda aqueles que exploram relações com os outros: a amizade, o amor, a solidão acompanhada.
Quando não fui poeta é um livro sobre todos nós: sobre o que somos quando a rotina ameaça nos engolir e sobre o que podemos ser quando deixamos que a poesia, a arte e a nossa própria voz, ainda que tímida, se insinue em nossa vida. É uma obra que celebra o poder da palavra como instrumento de sobrevivência e de afirmação, lembrando-nos que ser poeta não é profissão nem destino, mas um posicionamento, uma escolha cotidiana de escolher olhar, escolher sentir, escolher escrever, escolher viver.
Obs: imagens meramente ilustrativas.


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